miércoles, 17 de septiembre de 2014

São Luís-Maria Grignion de Montfort e o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem


São Luís-Maria Grignion de Montfort
(1673–1716)

Canonizado pelo Pp. Pio XII em 1947    


O Tratado da Verdadeira Devoção
à Santíssima Virgem


A estátua de Sao Luís-Maria está agora colocada no nicho superior da Nave Sul da Basílica de Sao Pedro no Vaticano.

Para esta brevíssima apresentação de São Luís Maria, acudo às palavras de São João Paulo II, a 21 de Junho de 1997, na sua carta dirigida à Família Monfortina, por ocasião do 50º aniversario da canonização de São Luís-María Grignion de Montfort.
O Santo Padre anuncia a sua felicidade na acção de graças ao Senhor «pela grande irradiação deste santo missionário, cujo apostolado foi nutrido por uma profunda vida de oração, uma inabalável fé em Deus Trindade e uma intensa devoção à Santíssima Virgem Maria, Mãe do Redentor.» E continua: «Pobre entre os pobres, profundamente integrado na Igreja apesar das incompreensões que encontrou, São Luís-Maria tomou por lema estas simples palavras: “Só Deus”. Ele cantava: “Só Deus é a minha ternura, só Deus é o meu sustentáculo, só Deus é todo o meu bem, a minha vida e a minha riqueza” (Cântico 55, 11). Nele, o amor por Deus era total. Era com Deus e por Deus que ia ao encontro dos outros e percorria os caminhos da missão.»
O Papa louva também a espiritualidade teocêntrica de São Luís-Maria, quem tinha o “gosto de Deus e da Sua Verdade” (O amor da Sabedoria eterna, n.13), e não hesitava «em abrir aos mais humildes o mistério da Trindade, que inspira a sua oração e a sua reflexão sobre a Encarnação redentora, obra das Pessoas divinas». «A pessoa de Cristo domina o pensamento de Grignion de Montfort: “Jesus Cristo, nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas outras devoções” (Tratado da verdadeira devoção, n. 61). A Encarnação do Verbo é para ele realidade absolutamente central: “Ó Sabedoria eterna [...] adoro-Vos [...] no seio do vosso Pai durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, vossa digna Mãe, no tempo da vossa Encarnação” (O amor da Sabedoria eterna, n. 223).»
Noutra ocasião, num escrito autobiográfico, com ocasião do 50º aniversario da sua ordenação sacerdotal, João Paulo II não hesita em afirmar que São Luís-Maria «é um teólogo de classe». De facto, pôs ao serviço da sua pluma todos os conhecimentos sólidos que tinha da Teologia dogmática y patrística juntamente com os ardores de um coração amante de Maria e Jesus.



São João Paulo II a respeito do “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”

O Papa, na sua carta com motivo do 50º aniversario da canonização de São Luís-Maria, diz-nos que «para conhecer a Sabedoria eterna, incriada e encarnada, Grignion de Montfort convidou constantemente a confiar na Santíssima Virgem Maria, tão inseparável de Jesus que «antes se separaria a luz do sol» (Verdadeira devoção, n. 63)», e ressalta a chamada do santo monfortino a «consagrar-se totalmente a Maria, para acolher a sua presença no mais íntimo da alma».


Foi exactamente isto que fez São João Paulo II, quem teve como livro de cabeceira e livro de bolso que o acompanhou toda a sua vida, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís-Maria Grignion de Montfort. Foi do mesmo Tratado donde João Paulo II retirou o seu lema episcopal tal como o atesta na sua Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, 15: «Esta acção de Maria, totalmente fundada sobre a de Cristo e radicalmente subordinada a esta, «não impede minimamente a união imediata dos crentes com Cristo, antes a facilita»[1]. É o princípio luminoso expresso pelo Concílio Vaticano II, que provei com tanta força na minha vida, colocando-o na base do meu lema episcopal: Totus tuus.[2] Um lema, como é sabido, inspirado na doutrina de S.Luís Maria Grignion de Montfort, que assim explica o papel de Maria no processo de configuração a Cristo de cada um de nós: “Toda a nossa perfeição consiste em sermos configurados, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Portanto, a mais perfeita de todas as devoções é incontestavelmente aquela que nos configura, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, sendo Maria entre todas as criaturas a mais configurada a Jesus Cristo, daí se conclui que de todas as devoções, a que melhor consagra e configura uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Maria, sua santa Mãe; e quanto mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais será a Jesus Cristo”.[3]»



São Luís-Maria, o “Tratado” e Satanás

São Luís escreveu o Tratado, provavelmente, no ano 1712, tendo o santo morrido a 28 de Abril de 1716. Os escritos de Luís-Maria foram cuidadosamente guardados  —quiçá num arquivo ou lugar reservado—, até que os tempos revolucionários do século XVIII francês obrigaram a mãos piedosas a fechá-los num cofre e a sepultá-los debaixo de terra à espera de tempos de ressurreição. Este momento chegou em 1842 —passados 130 anos—, e, como uma verdadeira graça sobrenatural, o livro do Tratado apareceu ao mundo em 1843.
Este acontecimento foi previsto à letra (revelação?, profecia?) pelo autor. Assim escreve São Luís no nº 114 do Tratado: «Prevejo que muitas bestas enraivecidas virão em fúria para rasgar com seus dentes diabólicos este pequeno escrito e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para o compor. Ou pelo menos procurarão envolver este livrinho nas trevas e no silêncio duma arca, a fim de que não apareça. Atacarão mesmo e perseguirão aqueles que o lerem e puserem em prática. Mas, que importa? Tanto melhor! Esta visão anima-me e faz-me esperar um grande êxito, isto é, um grande esquadrão de bravos e valorosos soldados de Jesus e Maria, de ambos os sexos, que combaterão o mundo, o demónio e a natureza corrompida, nos tempos perigosos que mais do que nunca se aproximam! (cf. Mt 24, 15). “Aquele que lê, entenda! Quem puder compreender, compreenda!” (Mt 19, 12).»



O “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”

Continuo a citar a carta de São João Paulo II com ocasião do 50º aniversario da canonização de São Luís Maria: «No nosso tempo, em que a devoção mariana é viva mas nem sempre suficientemente esclarecida, seria bom reencontrar o fervor e o justo estilo do Padre de Montfort, para atribuir à Virgem o seu verdadeiro lugar e aprender a orar: «Ó Mãe de misericórdia, dai-me a graça de obter a verdadeira sabedoria de Deus e de me colocar por isso no número daqueles que amais, ensinais e conduzis [...] Ó Virgem fiel, tornai-me em todas as coisas um perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho» (O amor da Sabedoria eterna, n. 227)».
Nesta publicação, e em publicações posteriores, farei uma colectânea dos números do Tratado, que quero ressaltar, de acordo com aquilo que é a temática do Apelos de Nossa Senhora.



Introdução do “Tratado da Verdadeira Devoção”

1. Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo.

5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cuja posse e conhecimento Ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho o qual quis humilhá-la e escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade. Para este fim tratava-a pelo nome de “Mulher” (Jo 2, 4; 19, 26), como a uma estranha, embora no seu Coração a estimasse mais do que a todos os anjos e a todos os homens.
Maria é a fonte selada[4] e a esposa do Espírito Santo, onde só Ele tem entrada. Maria é o Santuário e o Repouso da Santíssima Trindade, onde Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem exceptuar a sua morada acima dos querubins e serafins. Neste santuário nenhuma criatura, por mais pura que seja, pode entrar, a não ser por grande privilégio.

6. Digo com os santos: a divina Maria é o Paraíso Terrestre do novo Adão,[5] onde Ele encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande, o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência do Altíssimo, onde Ele escondeu, como em seu Seio, o seu Filho Único e n'Ele tudo o que há de mais excelente e precioso. Que grandes e misteriosas coisas fez o Deus omnipotente nesta admirável criatura, segundo Ela própria é forçada a dizer, a pesar da sua profunda humildade: “O poderoso fez em mim grandes coisas!” [Lc 1, 49]. O mundo não conhece estas maravilhas, porque é incapaz e indigno disso.

8. Todos os dias, de um extremo a outro da Terra, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo proclama e publica a admirável Virgem Maria. Os nove coros dos anjos, os homens de ambos os sexos, idades, condições ou religiões, os bons e os maus, e até os mesmos demónios são forçados a chamá-la bem-aventurada, quer queiram, quer não; a isso os obriga a força da verdade. Como diz São Boaventura, todos os anjos lhe cantam no Céu incessantemente: “Santa, Santa, Santa Maria, Mãe de Deus e Virgem![6] E, todos os dias, lhe oferecem milhões de vezes a saudação angélica: “Ave, Maria...”, prostrando-se na sua presença e pedindo-lhe a mercê de os honrar com algumas das suas ordens. O próprio São Miguel –disse Santo Agostinho–, embora seja o príncipe de toda a corte celeste, é o mais diligente em lhe prestar toda espécie de homenagens e em fazer com que lhas tributem. Constantemente aguarda a honra de por Ela ser mandado em auxílio a alguns dos Seus servos.

10. Depois disto, forçoso é dizer com os santos: “De Maria numquam satis![7] Isto é, Maria não foi ainda suficientemente louvada e exaltada, honrada, amada e servida. Merece ainda muito maior louvor, respeito, amor e serviço.

12. Depois de tudo isto, temos de exclamar com o Apóstolo: “Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem compreendeu...” [1 Cor 2, 9] as belezas, as grandezas e a excelência de Maria, o mais sublime milagre da graça, da natureza e da glória. Se quereis compreender a Mãe, diz um santo, procurai compreender o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus: “Que toda a língua aqui emudeça!

13. Foi o meu coração que ditou o que acabo de escrever com particular alegria, a fim de mostrar como Maria Santíssima tem sido insuficientemente conhecida até agora e como é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser.
Se é certo que o conhecimento e o Reino de Jesus Cristo se estabelecerão no mundo, não será mais que uma consequência necessária do conhecimento e do Reino da Santíssima Virgem Maria. Ela deu Jesus Cristo ao mundo a primeira vez, e há de fazê-lo resplandecer também segunda vez.
Sobre este nº13 cito as palavras do Pp. Paulo VI, no Discurso na Clausura da Terceira Sessão do Concilio Ecuménico Vaticano II, (21.11.1964): «O conhecimento da verdadeira doutrina católica sobre Maria constituirá sempre uma chave para a exacta compreensão do mistério de Cristo e da Igreja»






Testemunhos de Papas e autoridades eclesiásticas sobre o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís-Maria Grignion de Montfort

São Pio X — «Recomendamos empenhadamente o admirável Tratado de Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem do Bem-aventurado Montfort, e a todos aqueles que o lerem concedemos jubilosamente a Bênção Apostólica»

Bento XV — «[São Luís] deixou-vos este livro escrito pela sua própria mão [...] de tão grande autoridade e de tão grande unção»

Pio XII — «[São Luís] conseguiu que a integridade da doutrina católica fosse salvaguardada e que a religião católica iluminasse não apenas os espíritos, mas que viesse a exercer uma influencia benfazeja sobre os costumes privados e públicos»

O Cardeal D. José Saraiva Martins, Perfeito para a Congregação para as Causas dos Santos (1998-2008), no seu prefacio à edição portuguesa (Março 2012), refere-se ao Tratado como «uma espécie de tratado doutrinal sobre algumas verdades centrais da nossa fé».

Recentemente a Congregação para o Culto Divino, com o motivo da decisão de inscrever a celebração do Santo de Montfort no Calendário Romano Geral, diz o seguinte: «Recolhendo no ensinamento mariano de São Luís Maria Grignion de Montfort, como de saudável fonte, as indicações para a vida espiritual, são formadas, nos seminários e nos noviciados de todo o mundo, gerações de sacerdotes, de homens e mulheres consagrados a Deus, e ainda de numerosíssimos fieis. Não poucos santos e bem-aventurados encontraram na espiritualidade monfortana a fonte na qual podem alimentar sua Devoção à Mãe de Cristo e da Igreja. Ainda hoje diversos movimentos e grupos, espalhados pelas diversas partes do mundo, fazem explícita referencia à doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort
















[1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, 53
[2] Cf. Primeira Rádiomensagem Urbi et orbi (17 de Outubro de 1978): AAS 70 (1978)
[3] Tratado da verdadeira devoção a Maria, 120, em: Obras. Vol. I Escritos espirituais (Roma 1990), p. 430.

[4] «És jardim fechado, minha irmã, minha esposa, nascente fechada, fonte selada» (Cant 4, 12).
[5] Esta leitura de Gen 2, 8 em sentido mariano encontra-se também, por exemplo, em S. Efrém, S. Proclo, S. Ambrósio, S. João Damasceno, S. Leão Magno.
[6] Cf. São Boaventura, Psalt, majus, in Hymn. Ambros.
[7] Cf. Boudon, A Imaculada, prefácio, vol. 2, col. 589: «Se se disser que há demasiados livros sobre a devoção à Santíssima Virgem, os Santos Padres respondem que nunca se poderá louvá-la suficientemente; e São Bernardo, em especial, assegura que, ainda que todos os homens se esforçassem por falar dela, nunca se poderia dizer o bastante...»




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